Histórias de Assombração na Véspera do Natal



Ao longo do século XIX havia na Grã-Bretanha uma prática nas noites de Natal na qual as pessoas se reuniam perto da lareira para contar antigas histórias de fantasmas. Esse costume certamente foi um legado dos festivais pagãos que celebravam o solstício de inverno. Tal costume parece ter ficado restrito à Grã-Bretanha, não chegando a outros países da Europa nem aos Estados Unidos e teria inspirado o escritor Charles Dickens a criar o seu célebre Um Conto de Natal.

Como hoje é véspera de Natal, aproveito para inaugurar este blog- que terá como temática o oculto- postando duas histórias de assombração que me foram contadas pelo meu avô materno. O protagonista da segunda história, inclusive, é meu bisavô, pai de minha avó materna, portanto sogro de meu avô materno.

Aqui começamos nossa jornada, que espero ser longa e que nos leve não somente a um lugar, mas a diversos. Desejo a todos um Feliz Natal!



A luz vermelha

Esta história me foi contada pelo meu avô, quando eu ainda era uma criança. Foi um dos primeiros casos de assombração que ouvi e jamais o esqueci. Aconteceu em uma aldeia, em Portugal, no início do século passado. Um homem, que vou chamar de António, apenas para que ele tenha um nome, já que não me recordo se me foi dito algum nome, e que, possivelmente, era trabalhador rural, voltava para casa, extenuado, depois de uma dura jornada de trabalho. Ele andava a pé, por uma velha estrada de terra batida. Cruzar grandes distâncias por caminhada entre uma aldeia e outra ou de um centro de cidade ao campo era algo bastante comum naquela época- e ainda é, em determinados lugares do interior, onde há poucos carros particulares e o transporte público é precário.

Era tarde da noite e a estrada, cercada por mato, estava muito escura. António levava cerca de uma hora para chegar a sua casa.

A escuridão e o vazio do lugar não o incomodavam, ele já estava acostumado a isso e não era um tipo supersticioso.

A certa altura da estrada, não muito longe do seu destino, António notou um pequeno ponto de luz, vermelho, a uma dezena de metros à frente. Embora não tivesse um brilho muito forte, a luminosidade da coisa se destacava no meio de todo aquele negrume. António achou estranho, mas continuou a andar.

O ponto de luz foi ficando maior, conforme ele se aproximava, até atingir o tamanho de uma lâmpada, quando António ficou a apenas alguns passos de distância.

Sem entender o que estava acontecendo, António disse irritado: - Eu andei esse tempo todo no escuro, não é agora que eu vou querer um diabo de luz!- e chutou a “lâmpada”.

Na mesma hora, a luz se apagou e António recebeu uma forte bofetada em seu rosto.

Apesar do grande susto, António continuou sua caminhada no mesmo ritmo em que estava.

Ao chegar em casa, seus familiares notaram que havia uma marca vermelha em seu rosto. Era a da bofetada: havia sido tão violenta, que os dedos de quem o bateu ainda estavam estampados em sua face. A questão é que não havia mais ninguém na estrada... António contou a história para a mulher e filhos e foi se deitar, pois estava bastante cansado, além de intrigado com o insólito fato que lhe ocorreu. Apresentava também um pouco de febre.

A febre piorou ao longo da madrugada e, pela manhã, António parecia muito doente, o que era curioso, já que sua saúde estivera boa até a noite anterior.

Algumas horas depois, António morreu misteriosamente.



O animal

No início do século passado, no Rio de Janeiro, João trabalhava apagando os lampiões de rua que ainda eram a gás. Ele cobria uma área próxima ao começo de uma estrada.

Chovera no final da noite e havia uma densa neblina. Por causa disso, não era possível enxergar muitos metros à frente.

João estava só. Nas ruas, não se via viva alma e o intervalo de tempo entre um carro e outro que seguia para a rodovia era grande. O silêncio só era quebrado pelos seus próprios passos no asfalto molhado.

Por volta das quatro horas da madrugada, ao longe, saindo da neblina, na beira da estrada, João viu algo que se parecia com um animal. Daquela distância, de acordo com o que ele contava, assemelhava-se a um cachorro. No entanto, era grande, bem maior do que os cachorros comuns. A criatura vinha acelerada e com raiva, aparentando ter a intenção de atacá-lo.

Assustado, João tirou um revólver que carregava sempre em sua cintura e apontou para o bicho, que se aproximava cada vez mais.

Quando a enorme criatura, que ele já havia percebido não ser um cão, mas um ser desconhecido, estava a apenas alguns metros, João tentou disparar a arma, várias vezes, mas era como se o gatilho estivesse travado. A coisa passou bem ao seu lado e, nesse momento, um arrepio gelado percorreu todo seu corpo.

Em seguida, João tentou disparar o revólver para o alto e ele funcionou normalmente. Algo sobrenatural havia impedido os disparos anteriores... Ao redor, nenhum sinal da criatura. Ela desapareceu, misteriosamente, da mesma forma como surgiu.

João jamais encontrou uma explicação para o que lhe ocorreu.

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